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Opinião

A lenta mudança do tradicional ao tecnológico na orçamentação do molde

13 Maio 2024

A orçamentação representa uma fase crucial no processo do fabrico do molde, exigindo um profundo conhecimento e experiência por parte do orçamentista. Até hoje, essa etapa tem estado exclusivamente dependente da mão humana. A pessoa responsável pelo orçamento tem, desde o conhecimento detalhado do processo de fabrico até à avaliação precisa dos custos das matérias-primas, conjugando-os com o valor oferecido pelo cliente, bem como com as circunstâncias específicas da empresa. É um balanço exigente que poderá vir a ser simplificado pelo recurso à Inteligência Artificial. Entre vantagens e reservas, as empresas estão a avançar lentamente nesta mudança do tradicional ao tecnológico.


A IA vai seguir a linha de aprendizagem que os produtores de moldes foram fazendo, ao longo dos anos, até estarem aptos a abraçar a orçamentação: aprendendo com os sucessivos projetos e os seus desafios, e usando experiências similares como padrão para futuros projetos e orçamentos. É desta forma que Mário Galvão, da Unite, olha para a evolução da IA aplicada à orçamentação de moldes. A grande diferença, considera, é o tempo de aprendizagem. Se um profissional do sector necessita de vários anos até consolidar o conhecimento e experiência necessários, a máquina irá consegui-lo em pouco tempo. É uma questão de evolução. Mas tem grandes reservas em imaginar que, num futuro a curto prazo, isso venha a acontecer.


“A orçamentação é, talvez, a área mais crítica da atividade de uma empresa, até no que diz respeito à sua sustentabilidade”, defende, esclarecendo que “é a orçamentação que determina, em todo o momento, a continuidade da atividade da organização”. Por outro lado, trata-se de um processo “crítico”, uma vez que “engloba toda uma série de conhecimentos de quem está a fazer o orçamento, e que têm a ver com o histórico de projetos, mas também com muitas outras questões, algumas delas subjetivas e intuitivas”.


O facto de a indústria de moldes ser classificada como de ‘protótipos’, faz com que cada orçamento seja único, uma vez que se destina a um molde que não será repetido. “É através do conhecimento que foi sendo adquirido ao longo de muitos anos que quem está a orçamentar consegue, com muita rapidez, perceber como vai funcionar o molde muito antes de ele existir e, com base nessa experiência, consegue calcular um preço para cada um dos projetos”, salienta.


Se o orçamentista pudesse, em teoria, ser substituído por um sistema de IA, “isso poderia acrescentar ganhos ao processo, como a rapidez de resposta”. Contudo, enfatiza, “os atuais sistemas ainda não são tão desenvolvidos que permitam fazer essa substituição”.


O que existe e acrescenta valor a quem elabora os orçamentos são softwares que incorporam algum tipo de automatização, ou até mesmo de IA, através de machine learning, adianta. “Mas, como se pode facilmente compreender, conseguir transpor o conhecimento para um sistema ou um algoritmo de IA, implica a recolha de um número infindável de dados e a sua compilação, para permitir ter uma experiência semelhante àquela que um técnico de moldes desenvolveu ao longo de 20 ou 30 anos de experiência”, sustenta. Contudo, admite não ter dúvidas de que isso acabará por acontecer. “Vai ser possível, até porque estamos a falar de um tipo de aprendizagem (IA) que, não podemos esquecer-nos, tem uma curva exponencial. Levará o seu tempo, mas acabará por acontecer”, frisa.


Mário Galvão (UNITE)



DESUMANIZAÇÃO

Com o apoio dos sistemas, atualmente o orçamentista consegue obter “com rapidez dados concretos sobre projetos semelhantes”, o que contribui para agilizar o processo de orçamentação. “Um orçamento que há alguns anos poderia levar cerca de meia hora, dependendo do tipo de molde, hoje pode ser feito em 10 minutos”, exemplifica. E isto deve-se, sobretudo, à evolução da tecnologia de orçamentação, nomeadamente naquele que é a automação dos processos, acrescenta.


“A orçamentação tem evoluído de uma forma cada vez mais precisa, ou seja, hoje temos uma linha muito fina entre aquilo que é o preço que o cliente deseja pagar por um serviço (no caso, o molde) e o valor que nós podemos cobrar por esse serviço. E essa linha é tão ténue que a negociação - e o perder ou ganhar o projeto - depende, muitas vezes, de pequenos detalhes”, explica, sublinhando que “por isso, é tão importante ter a capacidade de desenvolver um orçamento que não só seja competitivo e que possa estar próximo daquilo que o cliente aceita, mas que também seja claro relativamente àquilo que é o valor acrescentado que a empresa está a oferecer”. É que, enfatiza, “muitas vezes, é isso que decide a adjudicação do projeto, mas também, em alguns casos, a continuidade da relação comercial com o cliente”.


“Podemos considerar que a orçamentação é o primeiro grande desafio do projeto de moldes; é a primeira grande barreira a ser ultrapassada e, por isso, é fundamental a precisão e rigor”, afirma ainda, acrescentando que isso também se aplica a uma outra área importante da indústria que é a orçamentação de alterações de moldes.


Desafiado a imaginar um futuro em que clientes e fabricantes comuniquem através de máquinas e que sejam estas a definir os valores dos negócios, Mário Galvão considera que “isso, dificilmente, acontecerá nos próximos anos”. Até porque tal mudança de paradigma implicaria uma questão que, salienta, dificilmente acontecerá: a desumanização da relação comercial.


“Atualmente, a maioria dos nossos negócios estão alicerçados numa forte relação de confiança entre cliente e fornecedor. A partir do momento em que esse processo seja automatizado, essa relação torna-se desumanizada e isso significa, em última instância, que deixará de haver elementos diferenciadores na indústria”, defende.