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O CENTIMFE, em parceria com a Makino (Singapura), promove um cicl (...)
14 Abril 2026
06 Outubro 2022
Unicórnios (empresas nascentes com uma valorização superior a mil milhões de dólares) podem ser encontrados em 45 países, um claro cenário da quebra da hegemonia de Silicon Valley. Hoje, metade estão fora dos EUA. Os investimentos das sociedades de capital de risco em startups americanas caiu de 84 %, há duas décadas, para menos de metade.
A difusão do capital reflete o enorme crescimento da tecnologia nos últimos anos e, mesmo no atual momento em que as valorizações parecem declinar, a parcela continua a descer. Dos locais que surgiram no cenário das startups, alguns são maduros, como Pequim, Londres ou Tel Aviv, com um foco e ambição globais. Outros, incluindo Bengaluru, Singapura ou São Paulo, estão em estágios iniciais de crescimento global. Todos desfrutam de um amplo conjunto de talentos técnicos, conexões profundas com outras partes do mundo e capital de risco local. Estes novos polos estão a redesenhar o mapa da inovação global – criando um mapa mais disperso, diversificado e competitivo.
Muitos dos novos aglomerados parecem diferentes de Silicon Valley – embora alguns compartilhem o seu clima agradável. Os hubs mais maduros tendem a gerar mais empresas de “deep tech” (tecnologia com elevado grau de investimento em I&D), que trabalham em áreas complexas como inteligência artificial e outros softwares sofisticados, voltados principalmente para clientes empresariais e não para consumidores finais. No entanto, enquanto as Startups de Israel e britânicas têm um foco internacional, as de Pequim estão focadas quase inteiramente no mercado doméstico. Os centros de inovação mais jovens, incluindo Bangalore, São Paulo e Singapura, parecem ser semelhantes entre si, na medida em que o seu foco é regional e não global. Em vez de abrir novos caminhos, estes centros geralmente adaptam os modelos de negócios existentes às condições do mercado local.
À medida que o rendimento disponível aumenta nestas novas regiões, os consumidores ficam dispostos a pagar por uma “tecnificação de serviços” (por exemplo, o Flipkart (e-commerce) é a Amazon da Índia; Nubank (fintech) é a Revolut do Brasil; Grab (ridehailing) é o Uber do Sudeste Asiático. Isso ajuda a explicar porque 70 % dos unicórnios do Sudeste Asiático e 80 % dos da América Latina estão em fintech ou internet de consumo. A disseminação mundial da internet de alta velocidade e dos smartphones permitiu que as startups atendessem clientes em praticamente todos os locais – a rápida adoção da tecnologia tornou o mercado muito mais profundo. Simultaneamente, à medida que as taxas de crescimento em mercados maduros diminuíram, os investidores sentiram necessidade de diversificar as suas apostas. A grande questão é como tornar Portugal e Leiria parte desta geografia?
No final do século XIX, Alfred Marshall cunhou a noção de “economias de aglomeração” (que associamos a “clusters”).
Marshall descreveu o fenómeno em que, quando uma região ganha uma posição de relevo, cada atividade adicional é atraída para o mesmo local por rendimentos crescentes (cada nova empresa tem mais vantagem em localizar-se neste ponto geográfico). É mais fácil fazer negócios e recrutar quando os fornecedores, clientes e pools de talentos estão próximos. As ideias fluem mais facilmente quando os colaboradores e funcionários de empresas concorrentes frequentam os mesmos bares (e, para já, a ascensão do trabalho remoto não parece ter quebrado essa lógica). Este, na verdade, é um dos segredos do cluster da indústria de moldes, que começou com fatores puramente “marshalianos” e hoje deve a sua concentração a questões ligadas ao conhecimento, inovação, ligações ao ensino superior e investigação.
O primeiro fator crítico para um cluster de sucesso é a existência de uma pool de talentos (por exemplo, Silicon Valley, Tel Aviv, Londres, entre outras, têm universidades de topo que fornecem talentos). No entanto, o talento por si só não é suficiente – a cultura também é importante. Veja-se o caso de Tóquio que, apesar da sua dimensão, tem tido dificuldades para criar um “hub” de startups (a predominância de conglomerados japoneses, muito avessos ao risco e com gestão conservadora, parece ser parte da razão).
Isto sugere-nos o segundo fator crítico: abertura para pessoas e ideias. Os migrantes são um grupo desproporcionalmente empreendedor. Cerca de 60 % das empresas de tecnologia mais valiosas dos EUA foram iniciadas por imigrantes. Centros europeus como Berlim, Londres e Paris têm grandes populações de imigrantes.
Bangalore ilustra como o talento e a abertura se combinam para criar a magia das startups. O gosto da cidade pela tecnologia de ponta remonta a 1905, quando o marajá local desviou um fornecimento de energia hidroelétrica, criando a primeira cidade da Ásia com eletricidade. Quatro anos depois construiu o Indian Institute of Science, hoje uma das universidades com maior prestígio no país. Os migrantes representam mais da metade de sua população, que está conectada ao mundo há muito tempo – em 1985, a Texas Instruments escolheu a cidade para fixar o seu primeiro escritório regional. Quando a economia da Índia “abriu”, em 1991, a cidade era o lugar natural para empresas e capitais estrangeiros se fixarem.
O que nos leva ao terceiro ingrediente: a presença de capital de risco. Para uma empresa prosperar, ela precisa de financiadores que entendam o ecossistema e estejam dispostos a alimentá-lo. Podem ser ex-fundadores de startups que, na geração seguinte, se tornam investidores-anjo, ou sociedades de capital de risco. A questão é se será possível replicar esta dinâmica em Leiria? Cada vez mais a cidade atrai migrantes e o talento parece mais disponível (embora ainda insuficiente). A cultura é (apenas) parcialmente aberta, mas propensa ao risco (dada a história da cidade). Por outro lado, se o “capital de semente” tem prosperado em Portugal, os investidores de Leiria procuram ainda investimentos mais tradicionais.
Em alguns casos, o Estado pode fornecer apoio. Para além do capital de risco, Silicon Valley foi construído através de contratos governamentais, essenciais nos seus anos formativos do pós-guerra, particularmente provindos do Departamento de Defesa.
A Fairchild Semiconductor, cujos funcionários incluíam os futuros fundadores da Intel, Sequoia Capital e Kleiner Perkins, dependia de compras governamentais para grande parte de seu crescimento inicial. Bangalore teve a sua quota de produção de equipamentos de pesquisa militar e Tel Aviv também tem fortes ligações com as forças armadas.
Alguns governos apoiam startups com capital em vez de contratos. Veja-se o caso de Singapura, que tem mais unicórnios por pessoa do que qualquer outro lugar, exceto Israel. Edwin Chow, da Enterprise Singapore, agência governamental responsável pela política de startups da cidade, atribui isso a esquemas destinados a atrair investidores e fundadores. Em 2009 foi criado um programa que combinava cada 1 dolár de investidores com quase 6 dólares do erário público. Pelo menos 15 fundos participaram neste programa, o que permitiu que os investidores comprassem a participação do governo pelo valor de face original As tentativas de criar clusters na maioria das vezes fracassaram. Em 1999, a Alemanha investiu € 1,5 biliões de euros na criação do cluster da Baviera. A França canalizou uma quantia semelhante para seus polos de competição em 2005. Como referia Josh Lerner, da Harvard Business School (2009), para cada intervenção governamental efetiva, houve dezenas, até centenas, de fracassos, onde os gastos públicos substanciais não deram frutos.
Na verdade, a maioria dos investidores e até mesmo alguns políticos, concordam que o sucesso de Singapura tem mais a ver com seu estatuto de entreposto, leis pró-negócios e estabilidade política, do que com o investimento. A importância do talento, da abertura e do capital de risco persistirão.
Mas os clusters que prosperam continuarão a evoluir. À medida que os clusters mais jovens amadurecem, gradualmente veremos foco em tecnologias mais avançadas, como está a acontecer na China. E novas cidades podem juntar-se às fileiras dos centros de tecnologia.
Lagos, a capital comercial da Nigéria, é hoje o player dominante no cenário africano de fintech. A questão passa por perceber como um cluster de desenvolvimento de produto poderá dar lugar a um centro global de inovação, centrado em Leiria.